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Não se trata de uma discussão técnica sobre tarifas aduaneiras; estamos falando de um verdadeiro atentado contra a cadeia automotiva nacional.

A decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) de prorrogar por seis meses a cota de importação com alíquota zero para veículos elétricos desmontados (CKD) e semimontados (SKD) representa um duro golpe contra a produção local. A medida, que envolve um volume expressivo de US$ 463 milhões a partir de 1º de julho, foi recebida com profunda crítica. Não se trata de uma discussão técnica sobre tarifas aduaneiras; estamos falando de um verdadeiro atentado contra a cadeia automotiva nacional, os fabricantes brasileiros de autopeças e os trabalhadores da cadeia. Trata-se de um privilégio injustificável que penaliza o setor.

Para uma região de forte tradição industrial como Jundiaí, o reflexo dessas escolhas políticas federais é imediato e muito preocupante. Nosso ecossistema produtivo regional depende diretamente da previsibilidade regulatória e de condições de competitividade que sejam perfeitamente justas. Quando o governo concede esse privilégio temporário para importadoras de kits, ele pune severamente os fabricantes que investem há décadas no Brasil, mantêm plantas industriais completas e desenvolvem tecnologia nacional. Prorrogar esse benefício desestimula a nossa produção nacional, a manufatura interna e ameaça milhares de empregos essenciais na nossa cadeia de fornecedores.

Além do impacto direto no nível de emprego, a decisão do Gecex compromete gravemente a estabilidade institucional. Alterar as regras no meio do jogo atropela o planejamento das montadoras nacionais, que foi estruturado com base em um cronograma definido em 2023. Esse tipo de oscilação inesperada transmite um sinal preocupante ao setor produtivo, fere a segurança jurídica e fragiliza a confiança na realização de novos aportes. O alerta da Anfavea é claro: a prorrogação coloca em risco R$ 140 bilhões em investimentos voltados à descarbonização da frota previstos até 2033 pelas indústrias instaladas.

Não é sem razão que os sindicatos laborais e as instituições representativas posicionam-se de maneira unânime contra a medida. O  desenvolvimento econômico passa pelo fortalecimento da base fabril instalada e pela valorização do emprego interno. O presente do governo às importadoras agrava a concorrência desleal contra quem produz aqui. Não aceitaremos que facilidades venham a destruir o patrimônio construído com muito esforço no solo paulista.

Diante desse cenário adverso, urge que as autoridades econômicas revisem essa postura prejudicial ao desenvolvimento regional. É inadmissível que a resiliência das nossas indústrias paulistas seja enfraquecida por decisões unilaterais que ignoram o valor da manufatura. Defender o emprego de quem gera riqueza para o país é um dever institucional essencial e inalienável para blindar o futuro e a soberania do país.
 
VANDERMIR FRANCESCONI JÚNIOR é 1º vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e diretor da Fiesp. O artigo foi publicado, originalmente, no Jornal de Jundiaí, edição de 30 de junho.