Você esta usando um navegador desatualizado. Para uma experiência de navegação mais rápida e segura, atualize gratuitamente hoje mesmo.
  • calendar_month
  • update
  • person Vandermir Francesconi Júnior, vice-presidente do CIESP
  • share Compartilhe

É essencial para proteger o nosso futuro produtivo, pois não é saudável para o mundo que um único país domine as exportações globais.

Nos últimos tempos, os debates sobre o comércio global voltaram-se para as oscilações nas relações econômicas com os Estados Unidos. Contudo, não é apenas a instabilidade na maior economia ocidental que exige atenção. Existe um movimento silencioso e acelerado no Oriente: a forte expansão das exportações chinesas. Olhar para isso com equilíbrio e clareza é essencial para proteger o nosso futuro produtivo, pois não é saudável para o mundo que um único país domine as exportações globais.

A colunista Gillian Tett, também membro do conselho editorial do Financial Times, contextualizou de forma didática a cena mundial e a ascensão chinesa com a recente explosão de suas exportações, alcançando quase US$ 4 trilhões. Na leitura do Fundo Monetário Internacional (FMI), esse volume gera um desequilíbrio capaz de desorganizar o comércio exterior. Lideranças do órgão pedem que a China estimule a demanda interna para conter o fluxo, mas não há sinais de que as recomendações serão ouvidas.

Para o Brasil, uma das consequências diretas é a desindustrialização por transbordamento (spillover). A indústria chinesa opera em hiperescala e recebe pesados subsídios do Estado, reduzindo custos a níveis imbatíveis. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) confirma que esse avanço tem substituído progressivamente o comércio regional de manufaturados.

Outro aspecto é a primarização da pauta exportadora. Vivemos uma assimetria: o Brasil vende matérias-primas e compra itens de alta tecnologia. Dados do MDIC e do IPEA indicam que mais de 75% das vendas para a China concentram-se em soja, minério de ferro e petróleo, enquanto mais de 95% das importações vindas de lá são artigos industrializados. Isso expõe o país à volatilidade e limita a geração de empregos qualificados.

Enquanto EUA e União Europeia criticam os subsídios chineses, a OCDE reporta que a China concede de 3 a 8 vezes mais incentivos que os concorrentes. O FMI nota que a diferença é estratégica: a China foca em tecnologias de ponta. Além disso, outro diferencial chinês é que seus subsídios vêm acompanhados da capacitação de trabalhadores e da instalação de linhas de transmissão de eletricidade de alta velocidade, garantindo extrema eficiência.

Diante desse cenário desafiador, países emergentes como o Brasil não devem buscar o isolamento, mas construir uma resposta soberana e equilibrada. Isso exige fortalecer políticas de neoindustrialização focadas em inovação, utilizar acordos regionais para recompor cadeias produtivas locais e investir em agregação de valor às commodities. Somente com planejamento e valorização do trabalho qualificado será possível mitigar riscos e garantir um desenvolvimento sustentável.

VANDERMIR FRANCESCONI JÚNIOR - primeiro vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp. Artigo publicado, originalmente, no Jornal de Jundiaí, edição de 11/08/2026.